silêncio, filha
não digas nada
pois o que me disseres pode doer
silêncio, o silêncio está bom
toda essa vida que levas
essa vida devassa, perversa
guarda pra ti, que está bem
tentarei não pensar nisso
enquanto aguardo tu mudares
me fala quando conseguir
aí, então, estarei de braços aberto
mas se não mudares...
não.
vais mudar.
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Isabella
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3:07 AM |
Depois de tanta solidão, vou demorar a deixar de me sentir sozinha.
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Isabella
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1:15 AM |
Paris é uma cidade de amor e, se estamos sós, é impossível não pensar no que já foi ou poderia ter sido. É o lugar da saudade do que está longe, onde refletimos sobre o que tem acontecido durante a nossa vida inteira. Dói muito, a saudade. A melancolia trazida pelo Sena e pelos casais comendo croissant nos bancos de praça, também não ajuda. Só que, no fim, é muito bom ter tempo pra pensar. É preciso coragem, é claro: nos defrontamos com nossos próprios demônios. É como passar o dia olhando para o espelho da alma e descobrindo todas as suas imperfeições e fraquezas. Aquelas, que escondemos com a falta de tempo e a multidão em volta, lembra? O descontentamento com a faculdade, com o trabalho, com os amigos, o namorado. Aquele sonho que varremos pra debaixo do tapete, porque não cabia na vida que supostamente pretendemos ter. Os amores mal resolvidos, mal vividos, não vividos. As pequenas manias diárias, que nem percebemos que existem.
No fim, a verdade sobre por que as pessoas costumam achar loucura viajar sozinha, tem fundamento, apesar de não ser o que elas justificam: é pesado, muito pesado. A falta de influências externas, de paredes para se escorar e se auto-desculpar pelas falhas é muito dura. No entanto, é um grande aprendizado. Certamente, cresci mais nesta viagem que vai terminando nos próximos dias do que no último ano de vida.
E o que eu descobri? Mais ou menos isso: que, no fim, sou eu, só eu, mas que ter pessoas que se ama em volta, é imprescindível. Que nada é tão grave e, depois da crise, a dor diminui e pode, com o tempo, até passar. E ainda: que o mundo é pequeno e que tudo é possível.
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Isabella
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12:36 AM |
Difícil falar sobre o que ainda está acontecendo. As emoções ainda à flor da pele, a perturbação constante. Mas posso tentar.
Faz mais de um mês que estou aqui. As pessoas dizem que estão com inveja da minha oportunidade, que eu deveria ser feliz o tempo todo. Fico pensando que, se fosse ao contrário, eu diria a mesma coisa. Só que o que é que se faz quando todo mundo diz isso e só se quer voltar pra casa e se esconder debaixo das suas próprias cobertas?
Não é fácil ter 19 anos e todas as responsabilidades em que pensar, inclusive a de aprender a falar direito outra língua pra que as pessoas te entendam. Acredito que eu não tenha avaliado bem as coisas quando decidi que eu era uma fortaleza e que, mesmo que todo mundo dissesse que era difícil, eu conseguiria. É bacana pensar que se conhece todos os tipos de sentimentos e que se é capaz de passar por tudo, mesmo sendo jovem. Só que é um ledo engano.
Perdi as contas das noites choradas, dos pedidos silenciosos desesperados para adiantar a data da passagem. Não é por falta de companhia, por falta de amigos para sair. Não é porque onde eu moro é ruim, nem por causa da comida. Talvez nem seja mesmo por causa do idioma. É impossível explicar. Como já me disseram, só eu, que estou na pele, posso entender. E se nem mesmo eu entendo, o que é que se faz?
Passei um mês morando numa residência de estudantes e agora é uma de família, onde eu pelo menos não tenho que correr atrás de uma alimentação minimamente saudável todos os dias, já que aqui tem café-da-manhã e janta incluídos, diariamente. Tudo me prova que as coisas estão melhorando, mas tudo me faz sentir pior. E eu estou numa das melhores e mais bonitas cidades do mundo. E não tenho passeado.
Eu realmente estou tentando, juro. Me forço a sair de casa, passeio com os amigos espanhóis, passeio sozinha. Hoje, acho que vou ao cinema. E espero que as coisas melhorem e que eu não sinta mais o que estou sentindo, o que quer que seja. Afinal, Paris me espera.
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Isabella
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8:42 AM |
É tão esperta
Tão bonita
Chega, desconfiada
Abre a porta e deixa entrar
Eu a beijo e ela sorri
Me dá uma confiança danada
E aí a gente retoma a conversa
Que cortamos ontem e anteontem,
Aquele papo que não acaba
Que dura a vida toda.
Então, ela fala alguma coisa
Eu me irrito e reclamo
E ela me abraça e me comove
E me desmancha e sabe
Que eu sou dela e fim.
E que mesmo que eu vá longe,
Para outro continente,
É dela que eu lembro quando
Fecho os olhos
Por ela que sigo em frente
E sorrio a cada instante,
Porque, para quem tem
a vida inteira,
O que são alguns meses
de distância?
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Isabella
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4:29 PM |
Muitas vezes, passa-se dias, meses e até mesmo anos mergulhado em ressentimentos e emoções negativas que não trazem nada de bom. As coisas parecem piores e tem-se dificuldade em sair do lugar.
Acredito que eu estava assim, nos últimos tempos. Não parada, porque é impossível. No entanto, movendo-me pouco, principalmente em relação aos meus sentimentos. Não quero mais ser assim. Não quero cultivar o que eu tenho de pior, se tenho tanta coisa boa pra dar. E nem pra dar para os outros, mas para mim mesma. Não vou fazer da vida mais pesada do que é. Quero correr, pular, voar, ser aquela pessoa ativa e inquieta (no bom sentido) que as pessoas costumam achar que eu sou.
Tomara que eu leia isso, daqui a um tempo, e veja que realmente consegui me livrar desta nuvem preta. =)
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Isabella
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9:53 PM |
I love you, I hate you, I miss you
E é assim com tudo na minha vida. Jamais saberei o que eu sou, o que eu sinto ou o que eu quero e muito menos o que os outros são, sentem e querem. Quando eu achar que algo é certo, serei a pessoa mais feliz do mundo. Eu espero.
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Isabella
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4:27 AM |
De dia, sou bonita
Sou estrela de cinema
Desfilo na areia
Me torno sereia
Personagem de Fellini
Andando entre mortais
Sem enxergar onde pisa
Cheia de si
Cheia dos outros
Confiante no presente
E no futuro
No entanto, quando a noite chega
Eu me jogo em seus braços
Me afogo nos seus beijos
E me torno apenas eu
Meus defeitos, minhas falhas
Confesso pra você
Entrego meu corpo
Depois entrego minha alma
Aceito qualquer derrota
E não preciso mais fingir
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Isabella
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2:59 PM |
Se jogou na cama, procurando refletir. Refletir, refletir, refletir, estava cansada disso. O mundo exigia que refletisse, que chegasse a uma conclusão, que resolvesse os problemas. Ela não queria. Ela queria era se esconder, dormir durante meses, até que todo o cansaço que sentia passasse. Fernando Pessoa disse: todos os meus amigos têm sido campeões em tudo. A ela, parecia que ninguém se responsabiliza por seus atos. A ela, lhe parecia que era a única culpada do mundo. A ela, que sempre procurou fazer o correto, lhe é cobrada a decisão de agir certo e não agir ou de não agir certo e agir. A moral, a ética, já não é mais ser boa. Não, boa é muito fácil. Boa, correta, verdadeira. Tudo muito simples. Agora, o mundo era ambíguo, tríguo, políguo, todos os íguos.
Sacou da gaveta uma revista de palavras cruzadas, tentou não pensar. Era o que precisava. No entanto, de que adianta não pensar? Esquecer, fechar os olhos, ligar o som bem alto, desligar o telefone. Só adiava o que precisava ser feito. E o que seria feito? Eis a questão. Voltou para as cruzadinhas. Prefixo de "endoblase": movimento para dentro. O que era o movimento para dentro? Era a espiral de fora para dentro, que ia diminuindo, diminuindo, diminuindo, até desaparecer? Se ela se fechasse em si mesma, trancasse o quarto e passasse a vida fazendo palavras cruzadas, será que iria, aos poucos, desaparecer? Para onde vai o que não existe mais? A espiral continua fazendo círculos em algum lugar, em alguma realidade, mesmo que não seja a nossa?
A resposta era "endo". Decidiu parar com o jogo, com medo de virar uma espiral inexistente, em uma realidade invisível. Não que fosse uma má idéia ser invisível por um tempo, mas temia não voltar. Era o que mais a fazia sentir frágil: não tinha coragem de resolver e não tinha coragem nem de ser invisível. Parecia que era completamente vulnerável ao que vinha até ela, além de o que surgia de dentro dela. Nada ela comandava, tudo acontecia, como se estivesse em uma sala de cinema. Era refém da própria vida e nada podia fazer. Talvez a espiral fosse inevitável. Voltou às cruzadinhas.
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Isabella
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2:26 AM |
Despiu-se, como quem diz: é isso. Nem mais e nem menos, nada tenho além do que ofereço neste instante. Aceite-me assim, ou vá embora; não posso fazer nada. Me olhou de um jeito sincero, quase pedindo perdão pelo pouco que ela tinha a dar, que era muito, mas ela não sabia. Gosto de gente assim, sempre gostei, por mais que eu não tenha coragem para tanta sinceridade. Nunca tive a coragem de olhar primeiro, de dar a mão primeiro, de dizer primeiro. Não é algo de que eu me orgulhe, como não me orgulho de minha falta de honestidade comigo mesma em diversos momentos.
Só o que eu poderia dizer a respeito de mim mesma é: tento ser. Não é fácil como parece, ser. Ser exige tempo e reflexão. Todos esquecem da dificuldade que se tem em ser, acabam cobrando que a pessoa seja, e, ainda, que seja o tempo todo. Não há como ser o tempo todo – acabamos fingindo que somos, colocando uma máscara durante o dia e só a tirando quando vamos dormir. É nos sonhos que conseguimos ser de verdade. Pelo menos, comigo é assim. Ademais, não é todo mundo que está pronto para ficar aí vendo os outros sendo; terminariam por fechar os olhos com força, querendo nunca mais abri-los, porque ver os outros sendo também não é uma coisa fácil. Por isso as guerras. Por isso as revoluções. Por isso os castigos.
Mas não perderei o foco. O problema é coletivo, mas o problema também é meu. Sou melhor em abrir os olhos e enxergar os outros sendo do que em eu mesma ser. Gostaria de não precisar dizer, mas essa provavelmente é a minha única chance de poder, um dia, ser. Sempre enxerguei mais os outros do que a mim. Sempre exigi que se vissem como eu os via. Porém, na luta pela adaptação externa, esqueci-me de que eu não sou perfeita e que eu cometo erros terríveis, cruéis, às vezes irreparáveis. Preciso aprender a ser, a realmente ser, a não me ocultar com uma máscara, a não dormir para ser sem ter vergonha.
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Isabella
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3:24 PM |
Tendi a ficar deprimida
A me recolher
A sentir a morte que
Esteve ao meu lado.
No entanto, a vida me chama
A cada instante
Me obriga
Me força
Não sei ainda se
Como um tormento ou
Uma dádiva.
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Isabella
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7:24 PM |
Reconheci na hora em que cheguei. Não que me tivesse visto, mas eu reconheci prontamente: não parava e, a princípio, nem focava. O que fez parar? Talvez meu olhar persistente, ou os meus esforços para ser notada. No entanto, prefiro crer que também me reconheceu. Tanto, que falamos, então. E como. Falamos da meia-noite até o sol já brilhar forte no topo. Perplexa, fui dormir. No dia seguinte, nem nos olhávamos, tamanha era a vergonha do crime da intimidade instantânea da noite anterior.
Na outra noite, fui cedo para a cama, frustrada com minha falta de coragem de me aproximar. Acordei, como em um sonho, com uma pessoa me chamando. Sorri. Sorrimos. Todo o temor, toda a vergonha se dissipou por completo. Havíamos nos reconhecido e não podíamos negar esse fato. Então, entregamo-nos a ele com toda a força, energia e profundidade que possa existir, porque não havia luta e porque não queríamos pensar no depois. E como não pensar? Agora, porque não sabemos viver sem esperar alguma coisa de algo, a luta é para não pensar.
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Isabella
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4:07 PM |
Por trás dos olhos
Por trás da certeza
Persiste a dívida
Comigo mesma.
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Isabella
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1:00 AM |
Me ignore
Me despreze
Me bata
Mas não me ataque
Com esse sorriso
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Isabella
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11:30 PM |
Queria dizer tanta coisa
Que chega a doer o meu silêncio
Mas não sei se a falta dele
Não traria a sua ausência
Não é amor o que eu sinto
Talvez nem seja paixão
Pode não ser absolutamente nada
Mas me dói ficar calada
Gosto de ser verdadeira
De descrever o que existe em mim
E a espera de espaço pra isso
É tortura que não tem fim
O silêncio um dia acaba?
Ou vira costume e vivemos assim?
Porque eu prefiro deixar pra lá
Do que acostumar a não ser eu
Tenho tanto amor pra dar
E tanto sentimento espalhado
Que chego até a confundir
O que sinto com o que imagino
Numa dessas explosões
Irão, por certo, me achar louca
Me levarão a um hospício
E lá viverei para sempre
A filosofar sobre o que sinto
E confundir com o que não sinto
Perdida em reflexões sem fim
Esperando o que não virá
Rabiscado por
Isabella
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9:39 PM |